PAULO PEREIRA

FRUTOS DA TERRA
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Os objetos de Paulo Pereira dialogam com as vanguardas modernas do século XX a elas incorporando referencias populares e religiosas. Eles mantêm a ancestralidade negra presente no inicio da era moderna, em Picasso, e também na formação estética do Brasil e em particular da Bahia. É esse caminhar entre os tempos, essa circulação ousada entre a racionalidade do pensamento e a sensualidade da forma, que garante ao trabalho de Paulo Pereira o seu encanto e sua pertinência no cenário artístico nos dias de hoje.
O artista é, antes de tudo, um construtor de pontes unindo situações e tempos distintos. Os objetos de Paulo Pereira estão prenhes de musicalidade e calor. A objetividade do seu método construtivo dialoga com elegância e a sensualidade das formas e com a organicidade da matéria. Objetos de culto, artefatos de design, Paulo Pereira percorre esses caminhos para produzir uma obra regida pela coerência, pela inteligência e pela sensibilidade. Diante de nos a obra não se furta a revelar a sua história; ela aceita e abraça a tradição da escultura moderna, dialoga com Brancusi e Henry Moore e mais recentemente com o fascínio e a mística de Anish Kapoor. Entre nós, as referências a personalidades distintas como mestre Didi, Rubem Valentin, Smetak, Waltercio Caldas e Tunga revelam a diversidade e riqueza que a obra do artista provoca.
No mundo fragmentado em que vivemos, regido pela velocidade da informação, o silêncio e a poética de Paulo Pereira permite surgir uma obra que, sem perder as suas ligações com os movimentos internacionais, a eles incorporam um raciocínio e uma sensibilidade negra, fundamental no cenário artístico do Brasil. Essa obra mestiça, bela e encantadora é um retrato perfeito de uma Bahia e, por extensão de um Brasil que rejeita o folclore gratuito, o estereótipo preconceituoso e faz da diversidade ética e estética um instrumento poderoso para construir com maestria objetos que parecem nascer de nossas entranhas, frutos de uma civilização mestiça e morena, espelho verdadeiro do que temos de melhor.
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Trecho do texto "Frutos da Terra", escrito por Marcus de Lontra Costa.
Rio de Janeiro, setembro de 2016.